Mostrando postagens com marcador psicologia no esporte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador psicologia no esporte. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de março de 2009

Domine seu medo

Na escalada, como em muitos outros esportes, o atleta mais preparado, mais forte e mais técnico pode ser derrubado por um fator que muitos nem se dão conta: O psicológico. O pavor de cair, o medo de falhar, a vontade de se mostrar para o público, etc.

Você está a 10 metros da sua última parada, seus pés começam a escorregar. Você tenta desesperadamente achar uma pega melhor nas agarras, mas seus dedos começam a suar. Sua habilidade de resolver problemas desaparece, e junto com esta sua capacidade de realizar uma boa escalada, fazendo que qualquer lance fique cada vez mais longo e difícil. O medo começa a passar pela sua cabeça e você começa a segurar cada vez mais forte até seus braços ficarem "bombados". Daí você começa a pensar na sua última costura e percebe que vai cair. Não tem outro jeito. Ou será que há?

Aqui vão dicas de grandes nomes do Alpinismo.

Saiba quando recuar: Se você está tão assustado que o medo está atrapalhando a sua escalada, você não devia estar na via. O grande escalador Peter Croft diz: "Se o medo é algo incontrolável e deixa você desesperado, é sinal de que você deve voltar". Recuar não requer somente a habilidade física de realizar os movimentos inversos (algo bom de se praticar), mas de se ter o discernimento para saber quando o fazer.

Sintonize-se: Chris McNamara um veterano de realizador de vias A5 no El Cap como Reticent Wall e Wyoming Sheep Ranch, fala sobre a voz do medo: "Você precisa ficar intimo com a sua voz na sua cabeça; faça-a sumir quando começa a atrapalhar e a escute quando ela o alerta sobre um acidente que possa vir a ocorrer".

Crie uma base de coragem: Você deve criar mais confiança através de várias escaladas, assim gradualmente diminuindo o fator medo. Croft diz "Se eu estou solando alguma via difícil,e porque antes eu já solei muitas vias e na maioria das vezes, o medo não aparece porque lá (na via) é onde eu quero estar". Jason Smith, que já solou Rostrum's Regular North Face (5.11), concorda, "As pessoas não estão solando qualquer coisa eles não estão absolutamente certos se vão conseguir subir. Não pode haver espaço para o medo".

Concentre-se: O controle da mente é crucial. McNamara se concentra no imediato: "Eu fico com medo quando eu me desconcentro dos movimentos que tenho que realizar naquele momento e começo a pensar no que pode acontecer, eu posso cair, esse friend não vai segurar e sair, e ai quando paro com esses pensamentos e me concentro novamente nos movimentos daí o medo simplesmente desaparece. Smith concorda: "Na maioria das vezes você está assustado por nenhuma razão em particular". Arno Ilgner, um grande escalador que dá cursos sobre como lidar com o medo, nos lembra que deve se olhar objetivamente sobre as situações, se você está com o foco em cima do que deve-se fazer para escalar ou realizar aquele movimento, você terá pouca energia direcionada para ficar com medo.

Fique frio: As vezes as preocupações são reais. Nestes casos controle sua mente. Croft se mantém positivo: "Enfoque-se em passar um bom tempo escalando em vez de subir praticamente se arrastando. Eu na maioria do tempo me enfoco em ficar relaxado, manter a mente relaxada". Para Jim Bridwell, que realizou solos e várias conquistas, e o assunto é muito simples: "Não fique fora de si.Não coloque-se como um perdedor antes mesmo de começar." Ilgner acrescenta: "Como você direciona sua atenção? Certamente você quer pensar ativamente, não lidar com as coisas que possam acontecer passivamente com você. Em vez de se concentrar em como evitar a queda, concentre-se em trabalhar na situação em que você está."

Tenha medo: O medo pode ser um auxílio, fazendo com que você escale melhor, isto quando for utilizado como combustível em movimentos mais difíceis. Bridwell diz que "O medo somente faz que com que você fique mais ligado e esperto na via. Se você consegue controlar a adrenalina que o medo fornece , o medo começa a fazer que o trabalho fique pronto."

sábado, 28 de março de 2009

E então, se identificou?

A psicologia do esporte busca estudar todos os aspectos emocionais que influenciam o rendimento do atleta, bem como o efeito do esporte e do exercício físico sobre a área emocional do seu praticante. São duas as vias de pensamento e por elas podemos analisar esses eventos desafiantes que são as competições de ultra-resistência, em que limites humanos são testados à exaustão. O que leva uma pessoa a buscar um duelo com ela mesma? Embora alguns autores possam examinar esses eventos extremos como uma auto-agressão, "acusando" o atleta de procurar sofrimento, isso é um direito que a pessoa tem de trilhar o caminho escolhido.
Tenho treinado psicologicamente muitos atletas para competições similares e conheço seu funcionamento. Uma pessoa que busca algo é porque necessita, e uma das respostas pode ser biológica (que afeta a psicológica). O forte e prolongado exercício pode ativar o sistema central de opióides, originado pelo aumento de endorfinas - substância natural produzida pelo cérebro em resposta à atividade física, que relaxa, preserva a dor e dá enorme prazer. As investigações evidenciam que a endorfina é um anestésico e muitos dos efeitos cardiovasculares e comportamentais são mediados por esse mecanismo. Mas sabemos muito pouco sobre esse opiácio. A adrenalina é outro fator que aparece em grandes desafios. Há várias pessoas que não podem viver bem sem ela. E a buscam não só no esporte, mas em todas as atividades humanas.
Na esfera psicológica há alguns fatores evidentes:
a) estado de consciência alterado, causado pelo exercício (a própria endorfina pode ter uma parte de culpa nesse estado de consciência).
b) apoio social, que são os ganhos em notoriedade (mídia), admiração de fãs, amigos, família e colegas, que causa um aumento na auto-estima do atleta;
c) auto-eficácia, onde a melhora da aptidão física do atleta dá uma sensação de domínio de seu mundo, segurança e auto-estima.
Para finalizar, no aspecto psicológico eu apontaria três fatores determinantes para a participação do atleta numa competição limite como essas: auto-estima, motivação e capacidade de suportar a dor. Haverá alguma prova maior e mais dolorosa que essas? É provável que alguém já esteja pensando em criar uma nova.
Entretanto, é possível que outros não-atletas também possam enfrentar competições de igual sofrimento, que é sua própria vida. E, a cada manhã, despertam motivados para enfrentar a sua carga diária, sem direito a manchete na mídia.
Por Benno Becker Jr. doutor em Psicologia.